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16.11.2007
Walter Altmann: Lutero e a liberdade do cristão nos 490 anos da Reforma
Daqui a dez anos, o mundo celebrará o quinto centenário do início da Reforma Protestante, desencadeada a partir da ação de Martim Lutero (1483 - 1546) ao pregar na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, suas 95 teses contra a venda de indulgências.
Nesses quase cinco séculos, a imagem de Lutero já foi pintada das mais diferentes formas. Dependendo do ângulo do observador, ele tanto pode ser "um dos pais do espírito emancipatório moderno" como "uma catástrofe na história da civilização ocidental"; "o pai na fé para a cristandade", ou o "javali selvagem" que destruía as videiras plantadas pela Igreja, como definiu o papa Leão X, que o excomungou em 1521.
Criar uma nova denominação não estava entre os planos do monge, professor, teólogo e escritor de produção impressionante, cuja obra compilada já ultrapassou 100 tomos na edição alemã, ainda incompleta. "A rigor ele propugnava pela renovação da Igreja, de acordo com parâmetros originais bíblicos, mas, contrariamente à sua vontade, surgiu uma Igreja Luterana", diz o pastor Walter Altmann (foto).
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Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), gaúcho, 63 anos, doutor em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, Altmann já publicou vários livros e estudos sobre a vida e a doutrina do reformador. Um deles, Lutero e libertação (co-edição Ática/Sinodal, 1994), é referência no tema entre os títulos latino-americanos. Com longa trajetória no movimento ecumênico, o pastor é o atual moderador (cargo equivalente a presidente) do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Fundado em 1948, o CMI reúne mais de 340 igrejas em cerca de 120 países, incluindo a grande maioria das ortodoxas e muitas das protestantes históricas, além de comunidades independentes.
Nesta entrevista, concedida na sede do Sínodo Sudeste da IECLB, em São Paulo, Walter Altmann fala sobre o legado de Lutero nos 490 anos da Reforma, afirma que a religião não pode ser usada como justificativa para guerras e defende que, no cenário religioso atual, marcado pela fragmentação e pela concorrência, é preciso aceitar a pluralidade entre as diferentes crenças, procurando "o diálogo e a cooperação em respeito mútuo". Adverte, porém, que o centro da mensagem de Lutero sobre a salvação - é por graça, ou seja, "não poderia ser adquirida por conquista ou mérito nosso, e tampouco comprada" - está sendo desvirtuado por "propostas que tentam de certo modo comercializar ou quantificar as bênçãos divinas".
Entrevista a Paulo Hebmüller (pauloeh@uol.com.br)
- Quem é Lutero hoje, 490 anos depois da Reforma da Igreja, iniciada por ele em 1517?
Walter Altmann - Como acontece com os personagens históricos de modo geral, cada época tem a sua imagem de Lutero. Algumas figuras salientes ao longo da história foram naturalmente a figura do Reformador da Igreja, às vezes associada à figura do rebelde contra as instituições eclesiásticas do seu tempo. Há a figura do campeão da liberdade de consciência, e em algum momento quase se cultuou na Alemanha a figura de um representante da nação alemã, que na época de Lutero ainda era muito dividida, com inúmeras unidades políticas independentes. Não há dúvida de que seu impacto maior e mais duradouro foi na Igreja cristã. A rigor ele propugnava pela renovação da Igreja, de acordo com parâmetros originais bíblicos, mas, contrariamente à sua vontade, surgiu uma Igreja Luterana. Lutero tinha a ousadia de se posicionar diante das mais diferentes áreas, às vezes de forma problemática, mas outras vezes de forma desafiadora e inovadora. É uma figura histórica que marca o caminho de transição da época feudal para a modernidade.
- Como entender o conceito de Lutero sobre a liberdade do cristão?
Altmann - É um conceito particularmente relevante para o contexto latino-americano atual. Não era uma liberdade arbitrária, porque sempre estava conectada com uma responsabilidade na convivência com o semelhante, portanto também vinculada a uma responsabilidade social. Lutero advogou uma profunda reforma do sistema educacional de seu tempo, além de medidas de ajuda social a pessoas empobrecidas. O conceito de liberdade associado a uma responsabilidade social me parece um legado importante. A liberdade também é importante internamente para as igrejas, porque muitas delas têm uma característica de predeterminar o que os fiéis podem ou devem fazer. A perspectiva que Lutero abriu foi uma orientação às pessoas para que no desenvolvimento de sua fé, e portanto de sua consciência, tomassem as decisões que considerassem compatíveis com o exercício dessa fé.
- Lutero teria que ser redescoberto tanto na Igreja quanto na sociedade?
Altmann - Acredito que sim. Existem naturalmente lados mais controvertidos da sua atuação, e esses às vezes têm sido destacados quase que com exclusividade, negligenciando outros aspectos. Por exemplo: a sua posição na Guerra dos Camponeses (1524 - 1525) é algo muito controvertido. O que é característico de Lutero é que ele não se omitiu, e esse é o dado positivo. Ele não recuou num recôndito tranqüilo de sua religiosidade, mas achou que deveria dizer uma palavra naquele momento. Desde o começo ele defendeu os direitos legítimos dos camponeses e admoestou os príncipes, embora tivesse chegado, num estágio mais avançado da polêmica, a uma exortação muito contundente às autoridades e aos príncipes para reprimir a revolta camponesa. Mas Lutero se posicionou visceralmente contra o uso da violência e contra a associação do uso da violência a certo padrão religioso - ou seja, Lutero era contra qualquer tipo de guerra santa. Isso também é válido para as tensões em nível mundial nos dias de hoje, em que inclusive grupos religiosos são protagonistas ou acabam sendo usados nesse campo. Ainda hoje é válido e necessário o conceito de Lutero de que não pode haver uma guerra santa e de que todas as reivindicações, ainda que legítimas, devem ser discutidas no âmbito da razão humana e da solidariedade social e não podem ser impostas pelo uso de violência nem legitimadas com valores religiosos.
- Lutero também manifestou preocupação com o avanço dos turcos, assunto de certa forma ainda em pauta hoje nas tensões entre o Ocidente e o Islã.
Altmann - É uma boa lembrança. Mesmo que contemplasse a hipótese de que as forças turcas pudessem assumir o domínio sobre toda a Europa - elas chegaram às portas de Viena -, Lutero recusou qualquer espírito de Cruzada e qualquer consideração de guerra santa. Ele exortou a que a cidadania resistisse, mas sempre advertiu que os cristãos deveriam ter um relacionamento respeitoso com os representantes de uma outra fé, no caso a muçulmana.
- Paradoxalmente, Lutero se manifestou violentamente contra os judeus num determinado momento.
Altmann - A relação de Lutero com os judeus tem uma grande dose de ambigüidade. Num primeiro escrito intitulado "Acerca do fato de que Jesus nasceu judeu" (1523), ele teve palavras muito claras de defesa da comunidade judaica. Num estágio posterior, já para o fim de sua vida - e os pesquisadores especulam quais as razões que moveram Lutero a essa mudança de posicionamento -, ele publicou um escrito absolutamente lamentável, que de forma alguma podemos legitimar e defender, em que há elementos claros de discriminação contra os judeus e exortações às autoridades para que limitassem os seus direitos, ainda que - e isso merece ser lembrado - jamais exortasse ao extermínio. Nós, que somos de uma geração pós-holocausto, sabemos que a Alemanha nazista perpetrou esse terrível crime, às vezes até se reportando a Lutero, mas nesse particular de forma ilegítima. Uma comunidade luterana deve se sentir perpetuamente em dívida para com a comunidade judaica em função desse comportamento tardio de Lutero, e deve se reportar muito mais àquele escrito original de 1523, que era uma palavra de defesa dos judeus.
Revolucionário ou conservador?
- Em 1967, nos 450 anos da Reforma, a revista Time ouviu vários especialistas sobre Lutero e o definiu como revolucionário espiritual, mas conservador político, chamando a atenção para alguns de seus paradoxos. O senhor concorda com essa visão?
Altmann - É uma tese advogada por mais pessoas, inclusive no Brasil. Leonardo Boff tem um artigo muito interessante em que também defendeu uma variante dessa tese de que Lutero seria um inovador e renovador na Igreja, contudo conservador político. Porém, devemos considerar que no século XVI não havia essa separação entre Estado e Igreja, ou entre secular e religioso, da forma como a conhecemos a partir da modernidade. Na medida em que alguém advoga uma mudança tão radical no âmbito religioso, como Lutero fez, num regime que na época tinha uma forte tutela do religioso sobre o secular, inevitavelmente há repercussões de renovação também no âmbito secular. Essa tese, portanto, deve ser matizada. É verdade que Lutero defendeu também a necessidade de um respeito às autoridades constituídas, o que poderíamos chamar de um traço conservador. Mas classificá-lo in totum como conservador no âmbito político não faz jus ao fato de que uma renovação tão profunda no religioso imediatamente
tinha conseqüências políticas. Há exemplos concretos que dificilmente poderíamos classificar como traços conservadores. Por exemplo, o seu empenho na área da educação: Lutero advogou pelo ensino universal e admoestou as autoridades a manter escolas para todos os cidadãos, incluindo as meninas, que não estudavam. Em suma, não podemos reduzir a uma fórmula simples o impacto que Lutero teve sobre as instituições e a organização política e social de seu tempo.
- Na reflexão teológica de Lutero, por exemplo sobre a doutrina da justificação pela fé, o que se mantém como mais forte e relevante nos dias atuais?
Altmann - A ênfase de Lutero foi de que a nossa salvação - justificação, pelo termo usado na época - é por graça e não poderia ser adquirida por conquista ou mérito nosso, e tampouco comprada. Esse aspecto da gratuidade do que Deus nos dá em última instância, como sentido e destino último de nossa vida, continua relevante. Ainda estamos cercados por propostas que tentam de certo modo comercializar ou quantificar as bênçãos divinas, normalmente condicionando isso a algo que deveríamos fazer de nossa parte, como alguma ação de benemerência, ou uma contribuição financeira muito pouco espontânea. Ser libertado desses traços de comercialização da salvação por uma mensagem que diz que nesse particular Deus a concede gratuitamente e então nos convoca ao serviço ao próximo - isso me parece uma mensagem que continua relevante para a sociedade e para a vida das igrejas.
- Como o senhor diz, de certa forma vivemos uma época em que estamos voltando à venda da salvação. Há quem defenda, dentro e fora das igrejas, que é preciso vir um novo Lutero ou uma nova Reforma. O que o senhor pensa disso?
Altmann - O próprio Lutero cunhou a expressão "Igreja reformada sempre em reforma" (Ecclesia reformata et semper reformanda est). Lutero seria o primeiro a combater qualquer tentativa de estratificar e imobilizar aquilo que aconteceu em seu tempo através de sua ação. Aliás, em grande parte ele mesmo se surpreendeu, a tal ponto que atribuía aos desígnios de Deus o fato de que o que dizia um monge agostiniano de uma pequena localidade alemã tivesse uma repercussão tão universal. Ele apostava que sempre de novo Deus suscitaria pessoas que dessem um testemunho vigoroso diante de necessidades internas da Igreja e da sociedade. Os nossos tempos são muito diferentes. Temos no mundo ocidental uma separação muito forte de Igreja e sociedade, do secular e do espiritual. Uma renovação interna da Igreja já não vai ter aquele impacto social que a renovação de Lutero teve. Hoje há necessidade de reforma permanente das igrejas, que pode ser vista como uma volta às próprias origens espirituais na vida, na prática e da pregação de Jesus Cristo, e portanto pode ser contestadora das estruturas eclesiásticas. Mas há também uma necessidade vigorosa de que valores éticos de solidariedade e de fraternidade que provêm dessas mesmas fontes de Jesus sejam colocadas como oferta e como desafio para a sociedade.
- O perigo de ficar clamando por um novo Lutero seria, no caso do Brasil, vermos cada vez mais novos "apóstolos" e "profetas" pipocando aqui e ali, além dos que já temos?
Altmann - Concordo plenamente. Vivemos um tempo de pluralismo religioso e também de muitas lideranças religiosas, algumas mais íntegras, outras mais oportunistas. Lutero deixou muito claro que não queria que seu nome fosse valorizado, mas sim que os cristãos devem seguir a Cristo. É isso o que vale e o que se deve fazer, em vez de focar na personalidade de lideranças. Lutero seria o último a advogar que houvesse um novo Lutero. Ele jamais teria sonhado uma realidade como a que vivemos hoje, com essa pluralidade de igrejas, uma delas chamada Luterana. Ele sonhava com uma Igreja que, em Reforma permanente, permanecesse fiel àquelas origens evangélicas. Até o fim de sua vida ele se considerava simplesmente um pastor da Igreja de Jesus Cristo na localidade de Wittenberg, onde morava, e não o chefe de alguma denominação.
Religião, ceticismo e modernidade
- Atualmente há um discurso racionalista e cético de certa forma culpando as religiões pelas guerras e conflitos humanos. Como o senhor analisa esse fenômeno?
Altmann - Em primeiro lugar, as igrejas devem reconhecer com realismo que não são isentas de culpa por crimes perpetrados ao longo da história. Mas talvez devêssemos considerar a palavra de Jesus: "Aquele que não tiver pecado que lance a primeira pedra", porque em nome da razão, da ciência e de ideologias políticas também se perpetraram muitos crimes. Do ponto de vista teológico, diríamos que se revela nesse comportamento a pecaminosidade do ser humano, que se expressa de muitas formas, incluindo a violência, também no seio das igrejas, mas não exclusivamente e nem primordialmente nelas. Creio que não se trata de quantificar quem tem mais culpa. Trata-se de detectar, seja a partir de fontes humanistas ou das espiritualidades religiosas, aquelas forças que nos conclamam a uma convivência fraterna entre os seres humanos, respeitando as suas diferenças e convicções e advogando por valores comuns de preceitos éticos para a convivência. Acho que é inglório ficarmos discutindo quem
tem mais culpa quando há tantos desafios pela frente em relação àquilo que positivamente devemos realizar em conjunto.
- Ao mesmo tempo, cresce o espaço para um misticismo difuso e talvez barato, com o sucesso de livros como O segredo, a emergência de uma espécie de pensamento mágico, feiras místicas em shopping centers etc. Como o senhor analisa essa realidade, em conjunto com a secularização e o ceticismo?
Altmann - Entendo que a convivência de uma pluralidade de opções religiosas com convicções muito secularizantes é uma característica da própria pós-modernidade. Num sentido mais fenomenológico poderíamos dizer que as tendências secularizantes são uma variante da pluralidade religiosa, sobretudo quando se advogam alguns traços tendentes a uma pretensão universal ou absoluta, como se elas fossem a única opção legítima. Nesse contexto, o interesse pelo místico revela que o ser humano anseia por uma dimensão mais profunda da razão de existir. A pergunta pelo sentido da vida e sobre como podemos expressá-lo com nosso íntimo, nosso coração e nossa fé é um traço característico do ser humano. É verdade que a busca do misticismo também revela uma grande dose de suspeita em relação às instituições religiosas e reforça a idéia de que no nosso íntimo poderíamos encontrar uma saída que não tenha a precariedade das instituições. Creio que aí reside um equívoco das opções místicas, porque a
limitação e a falibilidade humanas se revelam também no íntimo do indivíduo, e não apenas nas formas institucionais e estruturais da convivência.
Ecumenismo e pentecostalismo
- Como o senhor analisa o cenário religioso brasileiro, com o crescimento pentecostal e uma certa estagnação das igrejas protestantes históricas?
Altmann - O crescimento das igrejas pentecostais é um fenômeno não apenas brasileiro ou latino-americano, mas quase universal, com várias facetas impossíveis de reduzir a um fator único. É um movimento multifacetado, muito diversificado e com desdobramentos inclusive para o neopentecostalismo. Ele tem entre outros componentes uma característica de adaptação aos nossos tempos, com essa procura de novas possibilidades. Há um resgate importante do componente mais emotivo da fé: um grande show de música pop não se distingue muito de um grande evento pentecostal ou neopentecostal, portanto toca as mesmas cordas íntimas das pessoas e as motiva. O fluxo migratório no mundo é crescente, as pessoas ficam desarraigadas do seu ambiente original, e a forma como as igrejas pentecostais se organizam e se mobilizam, elas próprias migrantes em muitos sentidos, faz com que obtenham uma grande adesão. Nesse aspecto, é preciso haver uma reflexão autocrítica das igrejas históricas: até que ponto
elas não se imobilizaram nas suas estruturas e ficaram em desvantagem em relação à proposta pentecostal?
- Mas há também aspectos a criticar...
Altmann - Sem dúvida. Há o fenômeno de aproveitamento dessa disposição das pessoas, além de serem feitas promessas às vezes bastante fáceis que não poderão ser cumpridas. Em todo o movimento pentecostal e neopentecostal há pessoas que saem frustradas por expectativas que não se cumpriram. O resgate e o acompanhamento dessas pessoas é uma tarefa importante para as próprias igrejas pentecostais, mas também para as igrejas históricas.
- Quando um pastor diz que ele ou sua oração vão "determinar" que Deus faça isso ou aquilo, Lutero não se revira na tumba?
Altmann - Acredito que muitas dessas propostas realmente atrelam os fiéis à pessoa do líder. Essas igrejas têm uma facilidade muito grande de se subdividir quando aparece uma nova liderança. Surge uma espécie de disputa e cada novo líder procura se exceder para ter uma proposta mais atraente e mais radical que o outro. Mas Lutero tinha uma perspectiva que a seu modo é relevante para os dias de hoje, que tradicionalmente se chama Teologia da Cruz. Ela diz que não se pode esquecer que a religião cristã está centrada não numa proposta de poder, mas parte de alguém que sofreu e foi levado à cruz. Portanto, seus seguidores são chamados a tomar sobre si a cruz em serviço a outras pessoas. Essa dimensão não é suficientemente considerada em propostas religiosas que se caracterizam mais por ufanismo e por um espírito glorificante.
- O cenário ecumênico nacional sofreu percalços como a saída, no ano passado, da Igreja Metodista dos organismos ecumênicos em que a Igreja Católica está presente. Como está essa situação hoje?
Altmann - Esse espírito da fragmentação atinge também o movimento ecumênico, mas isso não diminui a relevância da proposta ecumênica. Ao contrário, a torna mais necessária e mais urgente. Como ilustração, podemos ver a situação do Oriente Médio. É extremamente importante que as religiões irmãs - cristianismo, judaísmo e islamismo - encontrem elementos de convivência para poder contribuir para uma paz duradoura e justa. A fragmentação constante entre igrejas e denominações não pode ser apresentada como algo ideal. Ao contrário, deve haver o maior entendimento possível. A diversidade de propostas, todas elas em nome do mesmo Cristo, acaba tirando a credibilidade de todas. Um dos obstáculos que o movimento ecumênico enfrenta hoje é uma tentação de cada uma das denominações de se recolher para dentro de si mesma, mais do que de se abrir para a cooperação. Essa é uma tentação que deve ser combatida. Há também declarações de diferentes igrejas que tendem mais a acentuar as diferenç
as do que as possibilidades de cooperação. Para quem tem convicção ecumênica, é mais um desafio a ser superado. Devemos num espírito bíblico buscar permanentemente o diálogo ecumênico. A saída da Igreja Metodista me entristece e eu a lamento. Creio que haverá um caminho de superação dessas dificuldades, porque a contribuição metodista para o movimento ecumênico tem sido muito significativa.
- As igrejas pentecostais e neopentecostais têm sido convidadas para esse diálogo ou elas preferem não participar até como estratégia para marcar diferença no "mercado religioso"?
Altmann - De modo geral, o movimento pentecostal não tem grandes estruturas de organização e tem sido tradicionalmente avesso à cooperação ecumênica. Contudo, há mais e mais indícios no mundo pentecostal de que a questão da unidade se torna relevante. Enquanto a palavra "ecumenismo" é vista de forma muito negativa por esses grupos, o tema da unidade, que na verdade é o coração do ecumenismo, se torna mais e mais relevante. Algumas avenidas estão se abrindo. Tivemos agora no início de novembro em Limuru, perto de Nairóbi, no Quênia, o primeiro Fórum Cristão Global, em que houve participação de todas as famílias confessionais da cristandade - desde as igrejas ortodoxas em seus vários ramos, a Católica, as protestantes históricas e com claro compromisso ecumênico, as protestantes chamadas evangelicais, vinculadas à Aliança Evangélica Mundial, de linha mais conservadora, e as pentecostais também. Aliás, isoladamente visto, a representação pentecostal foi a mais numerosa nesse Fórum. Muitos participantes sentiram esse encontro, em sua abrangência sem precedentes, como verdadeiramente um marco histórico. Ou, seja, estão se abrindo possibilidades de um diálogo, não tanto de forma institucionalizada, mas sim como um intercâmbio de experiências e de convicções de fé. Isso constitui uma significativa plataforma de encontro e diálogo, a ser difundido e aprofundado no futuro.
- O senhor disse numa conferência que um projeto hegemônico e o Evangelho são incompatíveis. Dentro desse contexto de concorrência religiosa, a tentativa de imposição de um projeto hegemônico fica mais exacerbada?
Altmann - Tradicionalmente a Igreja Católica teve um papel preponderante como religião oficial na América Latina, e quase a totalidade da população se tornou católica ou foi levada por diferentes meios ao catolicismo. De parte evangelical e pentecostal, às vezes há o discurso de "conquistar" o Brasil ou a América Latina (ou o mundo) para Cristo, entendendo-se que isso ocorra na forma como Cristo é cultuado no próprio movimento evangelical ou pentecostal. São manifestações de um desejo de representar privilegiadamente a religiosidade do povo. Temos que aceitar a pluralidade, a convivência e a integridade das diferentes propostas e procurar o diálogo e a cooperação em respeito mútuo.
Diálogo com a Igreja Católica
- Como fica a relação do movimento ecumênico com a Igreja Católica depois do documento de julho no qual o Vaticano declarou que a única Igreja de Cristo "subsiste na Igreja Católica"?
Altmann - O diálogo e a cooperação com a Igreja Católica seguem. Naturalmente a forma com que esse documento da Congregação para a Doutrina da Fé foi divulgado e a repercussão que teve na mídia causam algumas dificuldades práticas, mas isso não altera em nada o compromisso ecumênico que devemos ter, porque ele parte de uma convicção bíblico-teológica de que é o que Jesus Cristo deseja, e nesse sentido a Igreja Católica também o afirma. É verdade que nossa compreensão de Igreja é diversificada. O Vaticano o expressou, mas também as protestantes ou evangélicas e pentecostais não quereriam afirmar que são Igreja exatamente da mesma forma que a Igreja Católica o é. Contudo, creio que devemos fazer um esforço para colocar as nossas diferenças no bojo dos avanços que o movimento ecumênico já registrou e que nos dão motivos para ter esperança de que à frente possam ocorrer novos avanços. Há áreas significativas em que no passado tínhamos grandes divergências teológicas que foram amenizadas ou mesmo superadas. As diferenças hoje se tornam mais candentes justamente na compreensão do que é Igreja e de como ela se organiza. O documento da Igreja Católica trouxe isso à tona e é um tema que deve ser tomado no contexto do diálogo ecumênico (por exemplo no âmbito da Comissão de Fé e Ordem, do Conselho Mundial de Igrejas, comissão da qual a Igreja Católica também é membro). A convicção luterana é de que o conceito de Igreja não se caracteriza tanto por uma compreensão quantitativa dos vários ou muitos elementos que no seu conjunto perfazem a Igreja, mas sim num sentido qualitativo, ou seja, de pessoas que se reúnem em torno de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Esse é o núcleo essencial do ser Igreja, e esse núcleo nós reconhecemos plenamente na Igreja Católica e nas igrejas pentecostais. Não podemos negar, nem à Igreja Católica nem às pentecostais, a designação de Igreja, como muito menos negar o termo de irmão ou irmã na fé em Cristo, o que os católicos tampouco negam.
- O senhor diria que esse documento representa um recuo, enquanto a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada por católicos e luteranos em 1999, foi um avanço?
Altmann - São duas esferas diferentes. Mas o avanço na questão da Doutrina da Justificação, expresso no documento de 1999 depois de algumas décadas de diálogo, é um exemplo significativo que pode nos servir de modelo e inspiração para um diálogo perseverante também em torno do que é a Igreja.
07.11.2007
O legado moderno do Javali Selvagem
Paulo Hebmüller (pauloeh@uol.com.br)
Em 1483, o mundo em que Martinho Lutero nasceu, na cidade alemã de Eisleben, chacoalhava com transformações profundas. O Ocidente começava a fazer a transição da época feudal para a modernidade. O conceito de Estado era reformulado. A economia se transformava e o capitalismo mercantil nascia. As grandes navegações estavam à beira de “descobrir” o Novo Mundo. O humanismo e o Renascimento – com sua redescoberta das fontes da Antigüidade e a idealização de retorno a um estado original considerado modelo – injetavam novas idéias, retomavam a ciência e encontravam na nascente tecnologia da imprensa a oportunidade de se espalhar com rapidez nunca antes.
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Em 1517, há exatos 490 anos, Lutero se tornaria um dos protagonistas de outras mudanças impressionantes que viriam. No dia 31 de outubro daquele ano, o então monge agostiniano e professor de Teologia da Universidade de Wittenberg pregou na porta da Igreja do Castelo, para debate público, conforme tradição da época, sua relação de 95 teses contra a prática da venda de indulgências. Bom filho da Igreja, Lutero não era contra a venda de indulgências, mas sim contra o abuso e a criação de uma espécie de “balcão espiritual” em que se dispunham autoridades e práticas eclesiásticas. Bispados e arcebispados, por exemplo, eram cargos comprados e vendidos como se a Europa de então prefigurasse a Brasília do século 21.
A Igreja ensinava que Jesus e os santos haviam adquirido um “tesouro de méritos”, o qual Cristo “quis que fosse distribuído aos fiéis para sua salvação”, conforme determinou Clemente VI, papa entre 1342 e 1352. Esses “méritos excedentes” poderiam ser concedidos como indulgências pela Igreja, e só por ela, para remir a alma da pena temporal pelos pecados. Inicialmente esse “crédito” valia apenas para o cumprimento das penas na terra, mas depois foi estendido também para o purgatório – o lugar em que as almas redimidas, porém ainda imperfeitas, esperariam para se juntar aos salvos. Em dado momento, a doutrina passou a estabelecer que os vivos podiam auxiliar as almas que estavam no purgatório obtendo indulgências para elas e diminuindo seu tempo nesse estado. É como se fosse feita uma “transferência de créditos” de uma conta bancária com altíssimo saldo para outra que estivesse no negativo.
Divisões – Reformatio na Igreja era a palavra de ordem de muitos movimentos que pipocavam em vários lugares já nos séculos 12 e 13, abastecendo as fogueiras da Inquisição com lideranças tachadas de hereges. O cisma que decorreria da ação iniciada por Lutero a partir das indulgências não dividiu uma Igreja única e abrangente. “Partes populosas do mundo cristão já se encontravam fora da comunhão romana”, lembram os historiadores ingleses Felipe Fernández Armesto e Derek Wilson.
Desde 1054, Roma e os ortodoxos do Oriente estavam separados, e as chamadas “igrejas nacionais” – como a etíope e a da Armênia, cujo rei transformou o cristianismo em religião oficial no início do século IV, antes que Constantino fizesse o mesmo no Império Romano – também existiam de forma praticamente autônoma. A Reforma de Lutero, portanto, “não rachou uma Igreja monolítica; não introduziu heresias inéditas; não gerou as primeiras igrejas nacionais”, escrevem. Até mesmo o trono de Pedro já estivera dividido. A crise no papado produzira, entre 1378 e 1417, o chamado Grande Cisma, quando a obediência dos fiéis era dividida entre dois e às vezes três papas diferentes.
De acordo com o historiador inglês Patrick Collinson, para Lutero a Reforma não era uma novidade – mas as novidades “eram aquelas graves distorções da verdade que passaram por verdades em séculos recentes”. Na região de Lutero, cabia ao dominicano Johann Tetzel vender as indulgências, para o que ele criou uma espécie de jingle : “Quando a moeda na caixa tilintar, a alma ao céu sairá a voar” (do purgatório) . Na sua tese 27, Lutero rebateu: o certo é que, “ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça”, pois atender à intercessão da Igreja “depende apenas da vontade de Deus”.
O próprio Lutero enviou suas teses ao arcebispo Alberto da Mogúncia, que informou a seus conselheiros que mandara esses e outros escritos do monge a Roma. À diferença do que enxergava em outros movimentos, que propunham mudanças de dentro para fora, sem a quebra da suposta unidade da cristandade, a hierarquia romana encontrou nas proposições de Lutero a existência de “doutrinas novas”. Ele teria colocado em xeque a autoridade do papa, a qual deveria estar acima de todo questionamento. Automaticamente foi aberto um processo por suspeita de heresia.
Mudança brutal – Criar uma nova denominação não estava entre os planos do monge, professor, teólogo e escritor. “A rigor ele propugnava pela renovação da Igreja, de acordo com parâmetros originais bíblicos, mas, contrariamente à sua vontade, surgiu uma Igreja Luterana”, diz o pastor Walter Altmann, presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Várias vezes, ao longo de sua vida, o próprio reformador diria: “Quem é Lutero? Um pobre e fedorento saco de vermes”. Para ele, aos cristãos importava seguir a Cristo, e não obedecer a um líder – autoproclamados “apóstolos” incluídos.
“A ênfase de Lutero foi de que a nossa salvação – justificação, segundo o termo usado na época – é por graça, e não poderia ser adquirida por conquista ou mérito nosso, e tampouco comprada”, explica Altmann, autor de Lutero e libertação, referência no tema em publicações na América Latina. “O jeito não é fazer com que Deus nos ame, pois as chagas de Cristo são prova suficiente disso, e sim amarmos a Deus. Esse foi o começo do que foi considerado uma revolução copernicana”, escreve Patrick Collinson.
Essas proposições abalaram os alicerces do edifício da Igreja medieval numa Europa que vivia sob o regime da cristandade – um todo político e social, um corpo dividido em estamentos, dirigido por um braço espiritual e outro secular, com duas cabeças: o papa e o imperador. “A mudança trazida por Lutero foi brutal”, afirma o professor Roberto Romano, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. “Ele saiu de uma religião que por milênio e meio se estruturou com base no poder visível da hierarquia e transferiu o poder para a consciência, que é invisível. Isso é uma mudança radical".
Os efeitos da leitura de seus textos e das traduções da Bíblia que surgiram a seguir fugiram do controle de Lutero. Um movimento camponês enxergou na Reforma a oportunidade de corrigir as injustiças do sistema feudal, dando origem à Guerra dos Camponeses (1524–1525), definida por Karl Marx como “o mais radical acontecimento da história alemã”. Os comerciantes, banqueiros e artesãos viram a chance de sair do domínio eclesiástico, assim como muitos príncipes. Muito sangue correu até que, em 1555 – já com Lutero morto –, fosse selada a paz de Augsburgo, quando se definiu o princípio de que cabia ao príncipe escolher a religião que seus súditos seguiriam. Até hoje, como resultado dessa época, o sul da Alemanha é majoritariamente católico, enquanto o protestantismo é dominante no Norte.
Imagem – Lutero é um homem controverso, objeto de cerca de mil novos títulos, entre estudos e livros, publicados anualmente em todo o mundo. Como todo personagem histórico dessa envergadura, sua imagem já foi pintada das mais diversas maneiras. Na antiga Alemanha Oriental comunista, o filho da terra (nascera em território do Leste) inicialmente foi retratado como “o conservador”, enquanto Thomas Müntzer, o líder dos camponeses revoltosos do século XVI, era “o revolucionário”. Na década de 1970, quando o regime frustrava as promessas de democracia e hegemonia popular, o governo começou a temer insurgências e tratou de reabilitar Lutero como “o grande reformador” e um modelo de avanço com estabilidade. Incentivar o espírito revolucionário ligado a Müntzer poderia ser marcar um gol contra.
Helmar Junghans, professor de História da Igreja da Universidade alemã de Leipzig, escreve que, para compreender Lutero, é fundamental ter em mente que na visão medieval a história é um campo em que se digladiam o reino de Deus e o reino de Satanás. Boa parte do que o reformador produziu foi em função das demandas de seu tempo: polêmicas com os adversários – não raro recheadas, de parte a parte, de expressões e caricaturas que parecem extremamente virulentas aos olhos de hoje – ou orientações práticas para as comunidades que aderiam à Reforma, sobre como ordenar sacerdotes, como proceder com batismos ou casamentos e como dar formação cristã às crianças, por exemplo. Às vezes, suas opiniões são extremadas. Em relação aos judeus, por exemplo, teve duas posturas. Em 1523, escreveu um texto defendendo-os e afirmando que era preciso respeitá-los, entre outras razões, porque Jesus era judeu. No final da vida, publicou um texto raivoso, incitando à discriminação.
Como também era visto como uma espécie de “herói da nação alemã”, o “alemão por excelência”, Lutero foi usado por alguns nazistas como referência para a perseguição aos judeus no Reich de Hitler. “Existem lados mais controvertidos da sua atuação, e esses às vezes têm sido destacados quase que com exclusividade, negligenciando outros aspectos. O que é característico de Lutero é que ele não se omitiu, e esse é o dado positivo”, diz Altmann. Para o pastor, é ilegítima a apropriação nazista do discurso de Lutero para justificar a morte de judeus. “Ele jamais exortou ao extermínio. De qualquer forma, uma comunidade luterana deve se sentir perpetuamente em dívida para com a comunidade judaica em função desse comportamento tardio de Lutero".
Dependendo do ângulo do observador, o reformador é “um dos pais do espírito emancipatório moderno” ou “uma catástrofe na história da civilização ocidental”. Para ficar apenas nas definições da seara cristã, pode ser “o pai na fé para a cristandade” ou o “javali selvagem” que destruía as videiras plantadas pela Igreja, como disse o papa Leão X, que o excomungou em janeiro de 1521. Um exemplo de biografia que lhe faz um juízo negativo é a do francês Lucien Febvre, autor de Lutero: um destino. Para Roberto Romano, o livro é “injusto, preconceituoso e sobretudo chauvinista”, e seu autor ainda hoje “comanda muitas leituras enviesadas do Renascimento”.
Consciência – Goethe escreveu que depois de Lutero e da Reforma foi possível “voltar às fontes e compreender o cristianismo em sua pureza”. Para Hegel, Lutero rejeitou a autoridade da Igreja “e a substituiu pela Bíblia e pelo testemunho do espírito humano”. Marx afirmou que Lutero “venceu a servidão por devoção, substituindo-a, no entanto, pela servidão por convicção. Destruiu a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé”.
Em abril de 1521, já declarado herege e excomungado, o monge foi instado a se retratar de seus escritos perante o imperador Carlos V na Dieta (assembléia que reunia representantes do Império e da Igreja) de Worms. Lutero se negou, dizendo que sua convicção vinha das sagradas escrituras, às quais sua consciência “estava presa”: “Nada consigo nem quero retratar, porque é difícil, maléfico e perigoso agir contra a consciência. Aqui eu fico e que Deus me ajude. Amém”, respondeu.
No século 19, o historiador inglês Thomas Carlyle afirmou que esse discurso em Worms “pode ser considerado a maior cena da história européia moderna”, e que nele está o germe do puritanismo inglês, da Inglaterra e seus Parlamentos, das Américas e da Revolução Francesa. Exagero? Não para o professor Roberto Romano, da Unicamp. “Se seguirmos os traços de todas as revoluções democráticas modernas, chega-se a Lutero”, diz. “É possível ser moderno e antidemocrático, como Hobbes. O marco do nascimento do moderno e democrático é Lutero".
Em 1967, numa reportagem sobre os 450 anos da Reforma – intitulada “Rebelde obediente” –, a revista Time qualificou Lutero como um “inovador religioso”, porém “conservador político”. O pastor Walter Altmann não concorda. “No século 16 não havia essa separação entre Estado e Igreja, ou entre secular e religioso, da forma como a conhecemos”, diz ele, que é também moderador (cargo equivalente a presidente) do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Com sede em Genebra, o organismo congrega quase 350 igrejas e entidades de mais de 120 países. “Na medida em que alguém advoga uma mudança tão radical no âmbito religioso, num regime que na época tinha uma forte tutela do religioso sobre o secular, inevitavelmente há repercussões de renovação também no âmbito secular".
Entre as renovações que propôs, Lutero advogou pela alfabetização maciça e indistinta: cabia aos pais levar os filhos – e as filhas, novidade radical – para as escolas, além de tratar também da alfabetização dos empregados. “Lutero propõe mudanças tanto na organização do sistema escolar, tratando de questões sobre currículo, métodos, formação de professores e financiamento, como defende novos princípios e fundamentos para essa educação”, diz Luciane Muniz Ribeiro Barbosa, que apresentou recentemente, na Faculdade de Educação da USP, a dissertação de mestrado “Igreja, Estado e Educação em Martinho Lutero: uma análise das origens do direito à educação”. Segundo Luciane, o reformador ressaltava que o ensino deveria ser para todos – incluindo, como se disse, as meninas –, ter freqüência obrigatória e apresentar utilidade social.
Outro ponto fundamental, para Luciane – cujo trabalho foi orientado pelo professor Romualdo Portela de Oliveira –, é que o reformador procurou emancipar a escola do monopólio da Igreja. “Ainda que sua proposta de educação escolar seja baseada na idéia de uma educação cristã, com a Bíblia sugerida como o cerne do currículo, Lutero propõe que ela não seja mais uma tarefa da Igreja, mas sim uma responsabilidade das autoridades seculares”, diz. Essa ação pode ter contribuído para a idéia de separação entre Estado e Igreja, realidade que a época não conhecia.
Graça – Lutero casou-se em 1525 com a ex-freira Katharina von Bora, 15 anos mais nova do que ele. Influenciada pelos escritos do reformador, ela fugiu do convento ao lado de outras companheiras. Todas rumaram para Wittenberg e várias se casaram com líderes do movimento. O casal teve três filhos e três filhas, duas das quais morreram ainda na infância. Desde que começou a lecionar, em 1512, até a morte, em 1546, o reformador traduziu, escreveu, deu aulas, pregou e viajou intensamente, num ritmo impressionante e ininterrupto. Nesses mais de 30 anos, produziu em média um escrito novo a cada duas semanas. A edição alemã de suas obras, incluindo os livros, pregações, cartas, prefácios e estudos bíblicos, já soma mais de cem tomos – e ainda não foi terminada.
Como incompleta ainda está, para muitos, a obra fundamental da Reforma, do ponto de vista cristão. “Ainda estamos cercados por propostas que tentam de certo modo comercializar ou quantificar as bênçãos divinas. Ser libertado desses traços de comercialização por uma mensagem que diz que, nesse particular, Deus a concede gratuitamente, e então nos convoca ao serviço ao próximo, me parece uma mensagem que continua relevante para a sociedade e para as igrejas”, considera Walter Altmann.
Para Roberto Romano, “se Lutero vivesse hoje no Brasil, estaria preso por invadir a TV Record e pregar suas teses na porta da Igreja Universal”. O professor lamenta que “uma porção muito grande de setores confessionais originários da Reforma e também do catolicismo tenha entrado por essa via da redução da graça divina à pura ascensão do capital financeiro”. Católico e admirador de Lutero, o professor diz que essa situação é pior do que uma infidelidade – “é uma traição à essência da Reforma”. “Na atualidade, é necessário haver o retorno à pregação do essencial da graça de Deus contra essa imersão plena no mercado em que está virada toda a cultura contemporânea”, conclui Romano.
06.10.2007
Lançado o livro Amor e Discernimento na Com. Luterana de Petrópolis
O lançamento do livro Amor e Discernimento, publicado pelas Edições Paulinas, foi realizado no domingo 30 de setembro na Comunidade Evangélica Luterana de Petrópolis. O evento foi divulgado na página do Instituto Teológico Franciscano.
Promovido pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAALL) e a Comunidade Evangélica Luterana de Petrópolis, e foi realizado após a celebração presidida pelo Pastor Telmo Noé Emerich, com a participação da Profª Ana Maria Tepedino, do Pastor Alessandro Rodrigues Rocha, do Padre José Oscar Beozzo e da teóloga Maria Helena Arrochelas.
Foi organizada uma mesa de debate com os autores presentes em torno dos temas suscitados pelo livro.
29.07.2007
Participação luterana no atendimento religioso do PAN 2007
Rio de Janeiro (RJ) - O Comitê Organizador (CO-RIO) ofereceu atendimento religioso aos 5.662 atletas de 42 países das Américas, que participaram dos XV Jogos Panamericanos Rio 2007, realizados de 12 a 29 de julho na cidade do Rio de Janeiro. O Pastor Antonio Carlos Ribeiro, da Comunidade Evangélica Luterana do Rio de Janeiro (Paróquia Norte), do Sínodo Sudeste, foi convidado para a reflexão do culto do dia 28, às 17 horas.
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A celebração foi presidida pelo Pastor José Paulo Moura Antunes, do Serviço de Capelania do Exército Brasileiro, contou com a participação do grupo vocal e instrumental da Igreja Batista do Recreio e teve serviço de tradução simultânea para as línguas inglesa e espanhola. O Setor de Atendimento Religioso, atendeu Atletas de diversas religiões (católica, evangélicas, espíritas e de filosofias orientais), e funcionou na Capela da Vila Panamericana, em Jacarepaguá.
Os XV Jogos Pan-americanos Rio 2007 foram promovidos pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e administrados pelo Comitê Organizador (CO-RIO), ambos presididos por Carlos Arthur Nuzman, que contou com o apoio dos governos federal, estadual e municipal. A cidade do Rio de Janeiro, com uma população de 6.136.652 habitantes e ocupando uma área de 1.264.296 km², sediou o evento. Durante estes 17 dias, os atletas estiveram em busca de seus melhores resultados nas quadras, pistas, campos, lagoa, piscinas e em estádios poli-esportivos, nos diversos locais de competição (mapa).
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Abaixo a íntegra da reflexão apresentada:
Lucas 16.9
Fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade! Esse conselho de Jesus nos ajuda a pensar nas escolhas mais significativas da nossa vida, aquelas que implicam em saber quem somos e os valores com os quais estamos visceralmente comprometidos.
O patrão quer mandar embora o seu administrador, por isso exige que ele preste contas do seu trabalho. O administrador, consciente do conjunto das coisas que viu ao longo de sua vida, se deixa guiar pelo senso de justiça e não pela aplicação da letra fria da lei. Vai ao encontro das pessoas que têm débitos com seu patrão, o credor, e os favorece. O próprio patrão, posteriormente, o elogiou por sua maturidade ao posicionar-se do lado dos pobres. É nesse contexto que surge a frase de Jesus: fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade!
Ao assistir as competições dos Jogos Panamericanos 2007 percebemos que vocês atletas, assim como todos os profissionais envolvidos num evento desta magnitude, estão na condição desse administrador. A maioria absoluta dos/as atletas são pessoas que estudam, trabalham, superam dificuldades e se esforçam para ganhar a vida. E estão vivendo nestas últimas semanas, os seus dias de glória. Nesses momentos, assim como nos de crise, podemos ter a percepção mais real de quem, de fato, somos.
No alto do pódio, nos damos conta de que esse mundo é injusto com muita gente, pensamos na maioria absoluta das pessoas que não têm acesso a bens, possibilidades e chances. E vocês tiveram, por poder treinar, por ser animados por pessoas próximas, por fazer amizades no mundo do esporte e, sobretudo, por significar um motivo de alegria para milhões de pessoas, especialmente as famílias de vocês, os amigos e amigas que os viram crescer, os seus vizinhos, os seus colegas de infância e aqueles que lhes concederam as oportunidades fundamentais. E o povo deste país que os acompanhou, torceu e orou. Esses são aqueles para quem vocês são um orgulho pela participação na competição, pelas conquistas desportivas, pelos índices alcançados e pelas medalhas.
São esses, e as pessoas mais simples e pobres, que vocês devem fazer amigos e amigas. Conscientizar-se disso não é se culpar porque outros não tiveram as oportunidades que vocês tiveram, nem se punir porque outros não alcançaram o pódio, a fama e as portas abertas. Mas assumirem-se como parte dessa gente, demonstrar-lhes sua gratidão, e se colocarem a serviço deles de mil maneiras (palestras, participação em eventos, dedicação de horas em trabalhos voluntários, por exemplo). Numa palavra: ser solidários, amigos e amigas desses para quem vocês são verdadeiros heróis.
Após a glória e a fama merecidas, dividam com o seu povo os louros de sua conquista. Façam como Deus, cujo coração bate mais forte pelos mais fracos. Assim, vocês se eternizam no coração de sua gente e vão ser lembrados muito tempo depois que passarem os dias de glória. Ao fazer isso, vocês vão descobrir quem são, aprender que é possível chegar no topo e que isso cobrou sempre esforço, trabalho e dedicação. E é possível ensinar a lição mais importante: podemos contribuir com a cidadania, construir um país melhor, mais respeitado e mais amado por todos! Ao seguir a palavra de Jesus: fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade!, vocês transformam as suas vitórias na vitória de todo nosso povo. Que nessa tarefa, Deus os abençoe. Amém.
27.06.2007
Luteranos completam 180 anos no Rio de Janeiro
Deus por forças, méritos ou obras próprias, senão que são justificados gratuitamente, por causa de Cristo, mediante a fé, quando crêem que são recebidos na graça e que seus pecados são remitidos por causa de Cristo Confissão de Augsburgo, art. 4
Rio de Janeiro (RJ) – Quando o sino da Paróquia Martin Luther, tocou fortes badaladas e assistiu a entrada da procissão litúrgica com pastores e pastoras da cidade, tendo à frente o pároco local Dorival Ivo Ristoff, e por último o Pastor Sinodal Guilherme Lieven, do Sínodo Sudeste, e o Pastor Presidente Walter Altmann, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) (foto), na manhã do domingo, dia 24 de junho de 2007, corações e mentes voltaram a um tempo remoto, revivendo a experiência de homens, mulheres e crianças, que jogaram suas vidas numa aventura de fé em busca de trabalho, dignidade e futuro.
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Em seguida, a comunidade cantou Nun danket alle Gott (Dai graças ao Senhor), acompanhando o órgão e regidos por Eugênio Gall, lembrando-se dos primeiros 40 anos em que os colonos criaram comunidades evangélicas, construíram cemitérios, escolas e capelas, e colocaram os alicerces do que hoje é a IECLB, mesmo sem pastores com formação teológica. E foi preciso fé para trabalhar, sonhar, manter sua cultura, sem se afastar da bíblia, do hinário e do Catecismo, que não faltaram aos pertences trazidos, mesmo entre as famílias mais pobres.
Como os que se sentem agraciados e nutrem gratidão, luteranos se reuniram para dar graças a Deus, com vozes, acompanhamento de órgão, instrumentos de paleta e metais, por terem chegado a esta cidade que já era Sede dos Vice Reis de Portugal desde 1763 e cuja presença da corte portuguesa propiciou uma mudanças sócio-econômicos-culturais com escolas, Academia de Artes, Bibliotecas, Museus e a Imprensa Régia, além de ministérios, secretarias, tribunais e repartições públicas. E possibilitando a entrada de cristãos protestantes, num século XIX marcado pela imigração de 35 milhões de pessoas da Europa, das quais 10 milhões de alemães deixando seu país.
Enquanto repassava as memórias da sua história, a comunidade cantou que Deus é Castelo forte e bom (Ein feste Burg ist unser Gott), viveu momentos de lamentação e consolo, ouviu a leitura do Evangelho, foi desafiada pela pregação do presidente Altmann a viver, trabalhar, ser generosa na partilha, solidária nas dificuldades e agradecida. Embalada pelas vozes do seu coral, essa igreja, mãe das demais comunidades do Grande Rio, viu o melhor fruto desta epopéia de fé de quase dois séculos na assembléia reunida com seus membros, os membros das comunidades que dela surgiram, as autoridades religiosas e os representantes de igrejas cristãs e da tradição judaica.
Esse culto coroou uma semana de festividades iniciada no domingo, dia 17, numa semana composta de noite de homenagens, almoço beneficente, reunião do Grupo de Encontro, Reflexão e Fé; debate da Presença Evangélica no Rio de Janeiro; reunião de jovens e o concerto de órgão do músico belga Johan Hermans, trazido da Europa especialmente para esta ocasião. Esse marco celebrativo deveu-se ao esforço de organização e execução do presbitério local, liderado pelo presidente Rodolpho Georg e pelo Pastor Ristoff, que planejaram, empenharam-se para obter recursos, executaram tarefas, mesmo as mais difíceis, e conseguiram reunir seu povo para celebrar este momento.
Veja a história do
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